Eu passei boa parte dos meus últimos 20 anos vendo empresas comprarem software de um jeito muito específico. Você conta quantas pessoas vão usar o sistema e paga uma licença para cada uma delas. É o conhecido modelo por assento.

Isso funcionava bem quando o valor de uma ferramenta estava diretamente ligado a quantos humanos sentavam na frente de um computador para operar aquele sistema. Mas o cenário mudou de forma drástica agora.

Com a explosão da inteligência artificial e dos agentes autônomos, esse modelo começou a apresentar rachaduras sérias. Se um único agente de IA consegue realizar o fluxo de trabalho que antes exigia dez desenvolvedores ou analistas, como fica a conta?

A empresa dona do software deveria receber por apenas um usuário? Ou ela deveria cobrar pelo resultado entregue por aquela automação?

O movimento do mercado e o caso da IFS

Recentemente eu li que a IFS, uma gigante de software industrial, decidiu romper com a convenção da indústria. Eles anunciaram que vão focar em preços baseados em ativos operacionais em vez de contar cabeças.

A ideia deles é permitir que a IA seja adotada em toda a empresa sem que o custo de licenciamento se torne uma barreira proibitiva. É um movimento inteligente e, honestamente, muito necessário.

Se o objetivo da tecnologia é ganhar eficiência e escala, punir a empresa que automatiza processos com taxas por usuário é um contrassenso total. O valor real agora está no que o sistema produz e não em quem clica nos botões.

O crescimento do mercado de Agile e DevOps

Outro ponto que reforça essa mudança é o crescimento do mercado de serviços Agile e DevOps. Estudos recentes mostram que esse setor deve atingir cifras bilionárias nos próximos anos, impulsionado justamente pela integração da IA.

Quando falamos de DevOps moderno, estamos falando de automação extrema. Estamos falando de processos que rodam sozinhos e resolvem problemas de infraestrutura sem intervenção humana constante.

Nesse contexto, o valor está na velocidade de entrega e na estabilidade do ambiente. Cobrar por usuário em uma plataforma de automação parece algo vindo do século passado.

Uma reflexão sobre o valor do software

Eu sempre defendi que a tecnologia deve ser um meio para resolver problemas de negócio. O problema é que o licenciamento tradicional acabou virando um obstáculo para a inovação em muitos projetos que acompanhei.

Muitas vezes vi equipes evitando usar ferramentas melhores porque o custo por usuário estourava o orçamento. Isso gera uma dívida técnica silenciosa e trava o crescimento da empresa.

Acredito que estamos entrando na era do software orientado ao resultado. É o modelo onde o preço é justo para quem usa pouco e escala conforme o valor gerado para o negócio aumenta.

Será que as outras grandes empresas de software vão ter a coragem de abandonar a zona de conforto das licenças fixas? É algo que precisamos observar de perto porque isso vai ditar quem sobrevive nesse novo mercado.