O fim da era onde criar era o difícil
Durante décadas, eu e muitos colegas de profissão encaramos o código como a grande muralha. Se você sabia programar, você tinha a chave do castelo. O problema é que essa muralha caiu. Com a chegada do que chamamos de vibe coding, que nada mais é do que usar linguagem natural e IA para gerar software enquanto você guia o processo, qualquer pessoa consegue colocar uma ideia funcional de pé em minutos. Mas parece que a festa encontrou um limite bem físico e burocrático.
Recentemente, a Apple começou a remover aplicativos e bloquear atualizações de plataformas que permitem gerar e executar código dinâmico via prompts. O motivo? Um salto absurdo de 84% nas submissões de novos apps em apenas um trimestre. Imagine o caos. A Apple, que sempre foi a guardiã rigorosa do seu ecossistema, se viu afogada em um mar de softwares criados no estalar de dedos.
O gargalo mudou de lugar
Isso me faz pensar muito sobre para onde o mercado está indo. Antigamente, o gargalo era a mão de obra técnica. Hoje, o gargalo é a curadoria. De que adianta a inteligência artificial produzir código em massa se o funil de revisão e distribuição continua sendo operado por humanos com tempo limitado? Estamos saindo da era da escassez de software para a era do ruído absoluto.
Eu já vi muitos ciclos nesse mercado, mas este é diferente. Quando plataformas de desenvolvimento visual ou low-code surgiram, o ganho de velocidade era real, mas ainda exigia um pensamento estruturado. O vibe coding leva isso ao extremo. Ele permite que o software seja descartável. Criou, usou, jogou fora ou publicou. E é aqui que a Apple e outras Big Techs levantam o braço. Elas não querem que suas lojas de aplicativos virem um lixão digital de ferramentas genéricas e sem manutenção.
A permissão para publicar vale mais que o código
O que essa notícia da Apple nos mostra é que a barreira de entrada mudou. Não é mais sobre a capacidade de construir. Agora, a questão central é a permissão para publicar. Se você é um empreendedor ou alguém querendo tirar um app do papel hoje, seu maior risco não é mais o bug no código, mas o filtro defensivo das plataformas. A Apple está agindo como um filtro contra o ruído e isso cria um novo tipo de escassez.
Sempre defendi que a tecnologia deve ser acessível, e continuo defendendo. Mas precisamos ser honestos. O código gerado por IA muitas vezes carece de contexto de segurança e otimização que um olhar humano experiente traz. Quando você multiplica isso por milhões de novos desenvolvedores gerando apps em série, o sistema colapsa. É uma queda de braço entre a produção infinita da IA e a capacidade finita de curadoria humana.
O que esperar desse movimento
Eu fico me perguntando como as ferramentas de desenvolvimento vão se adaptar a isso. Provavelmente veremos uma pressão maior para que essas IAs não apenas escrevam código, mas também garantam conformidade com diretrizes de lojas antes mesmo do primeiro deploy. O software está ficando cada vez mais barato de produzir, mas a confiança e o espaço na tela do usuário estão ficando cada vez mais caros.
Será que estamos caminhando para um futuro onde o software será tão comum que não precisaremos mais de lojas centrais? Ou as lojas se tornarão clubes ainda mais fechados e exclusivos? O movimento da Apple é um alerta para quem acha que o desenvolvimento de software agora é só apertar um botão. Construir é fácil, mas ser relevante e aceito no ecossistema continua sendo um jogo de gente grande.